O argumento cosmológico possui várias formas. Aqui está uma versão
simples da famosa versão do argumento cosmológico da contingência:1. Tudo que existe possui uma explicação para sua existência, seja na necessidade de sua própria existência, seja em uma causa externa.
2. Se o universo possui uma explicação para sua existência, esta explicação é Deus.
3. O universo existe.
4. Portanto, o universo possui uma explicação para sua existência (de 1 e 3).
Agora, logicamente este é um argumento sem falhas. Isto é, se as
premissas são verdadeiras, então sua conclusão é inevitável. Não importa
se você não gosta da conclusão. Não importa se nós temos outras
objeções para a existência de Deus. Se as três premissas forem
justificadas, nós temos que aceitar a conclusão do argumento. Então a
questão é: o que é mais plausível, que estas premissas sejam verdadeiras
ou que elas sejam falsas?
Premissa 1
Considere inicialmente a premissa 1. De acordo com ela, existem dois
tipos de coisas: aquelas que existem necessariamente e aquelas que são
produzidas por causas externas. Permitam-me explicar melhor isto.
Coisas que existem necessariamente existem por necessidade de sua
própria natureza. É impossível a elas não existir. Muitos matemáticos
pensam que os números, conjuntos e outras entidades matemáticas existem
desta forma. Eles não são causados à existência por alguma outra coisa;
eles simplesmente existem necessariamente.
Em contraste, coisas cuja existência foi causada por outra entidade não
existem necessariamente. Elas existem contingentemente. Elas existem
porque algo produziu a existência delas. Objetos físicos familiares como
pessoas, planetas e galáxias pertencem a esta categoria.
Desta forma a premissa 1 diz que qualquer coisa que existe deve ser
explicada em uma destas duas formas. Esta afirmação parece ser
plausivelmente verdadeira quando refletimos sobre ela. Imagine que você
está caminhando em uma floresta e se depara com uma bola transluzente no
chão. Você naturalmente começa a se perguntar como ela foi parar ali.
Se algum dos seus amigos de caminhada disser a você, “Não se preocupe!
Não existe explicação alguma para a existência desta bola!”, você vai
pensar ou que ele está louco ou que ele está apenas querendo que você
continue caminhando. Ninguém aceitaria seriamente a sugestão de que a
bola sempre esteve lá sem nenhuma explicação.
Agora suponha que você aumente o tamanho da bola na história para o
tamanho de um carro. Isto não faria nada para satisfazer ou eliminar a
exigência por uma explicação. Suponha que fosse do tamanho de uma casa. O
mesmo problema. Suponha que fosse do tamanho de um planeta. O mesmo
problema. Suponha que fosse do tamanho de todo o universo. O mesmo
problema. Simplesmente aumentar o tamanho da bola não elimina a
necessidade de uma explicação. Uma vez que qualquer objeto pode ser
substituído pela bola nesta história, isto nos dá bases para acreditar
que a premissa 1 é verdadeira.
Pode ser dito que a premissa 1 é verdadeira sobre tudo o que existe no universo, mas que não é verdadeira sobre o universo em si. Tudo no universo tem uma explicação, mas o universo em si não possui.
Tal resposta comete o que tem sido apropriadamente chamado “Falácia do
Taxi”. Como o filósofo ateísta do século XIX Arthur Schopenhauer
sarcasticamente observou, a premissa 1 não pode ser abandonada como um
taxi que você abandona quando você chega ao destino desejado! Você não
pode dizer que tudo possui uma explicação para sua existência e então de
repente isentar o universo. Seria arbitrário afirmar que o universo é
uma exceção à regra. (Deus não é uma exceção à premissa 1: veja
abaixo no 1.4.) Nossa ilustração da bola na floresta mostra que
simplesmente aumentar o tamanho do objeto a ser explicado, mesmo se
aumentá-lo até ele se tornar o próprio universo, não contribui em nada
para eliminar a necessidade de alguma explicação para a existência do
objeto.
Alguém pode tentar justificar a aplicação da exceção do universo à premissa 1. Alguns filósofos têm afirmado que é impossível
ao universo ter uma explicação para sua existência. Porque uma
explicação para o universo teria ter algum estado anterior de
propriedades nos quais o universo não existia ainda. Mas isto seria o
nada, e nada não pode explicar nada. Desta forma o universo deve simplesmente existir inexplicavelmente.
Entretanto esta linha de raciocínio é obviamente falaciosa, pois ela
pressupõe que o universo é tudo o que existe, que se não existisse o
universo, nada existiria. Em outras palavras, a objeção pressupõe que o
ateísmo seja verdadeiro. Aquele que faz esta objeção está assim
mendigando a questão em favor do ateísmo, argumentando em círculos. O
teísta concordará que a explicação para o universo deve ser de algum
estado anterior (explicativamente) de propriedades nas quais o universo
não existia ainda. Mas este estado de propriedades é Deus e sua vontade,
não “nada”. Desta forma parece que a premissa 1 é mais plausivelmente
verdadeira do que falsa, o que é tudo que precisamos para ter um bom
argumento.
Premissa 2
O que dizermos, então, sobre a premissa 2? Ela é mais plausivelmente
verdadeira do que falsa? Embora a premissa 2 possa parecer a princípio
ser controversa, o que é realmente incômodo para o ateu é que a premissa
2 é logicamente equivalente para a típica resposta ateísta ao argumento
da contingência. (Duas proposições são logicamente equivalentes se for
impossível a uma delas ser verdadeira enquanto a outra for falsa. Elas
ficam de pé ou caem junto.) E o que os ateus quase sempre dizem em
resposta ao argumento da contingência? Eles tipicamente afirmam o
seguinte:
A. Se o ateísmo é verdadeiro, então o universo não possui explicação para sua existência.
Uma vez que, no ateísmo, o universo é a realidade última, ela então
apenas existe como um fato bruto. Mas isto é logicamente equivalente a
dizer que:
B. Se o universo possui uma explicação, então o ateísmo não é verdadeiro.
Assim você não pode afirmar (A) e negar (B). Mas (B) é virtualmente um
sinônimo da premissa 2! (Faça a comparação.) Desta forma, ao dizer que,
dado o ateísmo, o universo não possui explicação, o ateu está
implicitamente admitindo a premissa 2: se o universo possui uma
explicação, então Deus existe.
Além disto, a premissa 2 é muito plausível por seus próprios méritos. Pense no que o universo é: toda realidade espaço-tempo, incluindo toda
matéria e energia. Disto se segue que se o universo possui uma causa
para sua existência, esta causa não pode ser física, material, espacial
ou temporal. Ela deve ser não-física, imaterial e estar além do espaço e
do tempo. Agora, existem apenas dois tipos de coisas que podem se
encaixar nesta descrição: objetos abstratos como números ou mentes
incorpóreas. Mas objetos abstratos não podem causar nada. Isto faz parte
do que significa ser “abstrato”. O número sete, por exemplo, ele não
pode causar efeito algum. Assim, se existe uma causa para o universo,
ela deve ser uma mente transcendente e incorpórea, o que nós cristãos
entendemos ser Deus.
Premissa 3
A premissa 3 não é negada por nenhuma pessoa que sinceramente busca a verdade. É óbvio que o universo existe!
Conclusão
Destas três premissas segue que Deus existe. Agora, se Deus existe, a
explicação para a existência de Deus repousa na necessidade de sua
própria natureza, uma vez que, como até mesmo ateus reconhecem, é
impossível a Deus ter uma causa. Assim, se este argumento bem sucedido,
ele prova a existência de um Criador pessoal, necessário, não-causado,
eterno e não-espacial para o universo. Isto é verdadeiramente espantoso!
A Resposta de Dawkins
Então, o que Dawkins tem a dizer em resposta a este argumento? Nada!
Apenas olhe as páginas 112 e113 de seu livro onde você espera ver este
argumento ser comentado. Tudo o que você encontra é uma breve discussão
de algumas versões ultrapassadas dos argumentos de Tomás de Aquino, mas
nada sobre o argumento da contingência. Isto é digno de nota uma vez que
o argumento da contingência é um dos mais famosos argumentos para a
existência de Deus é defendido atualmente por vários filósofos como
Alexander Pruss, Timothy O’Connor, Stephen Davis, Robert Koons e Richard
Swinburne – apenas para citar alguns.[1]
Fontes:
[1] Alexander Pruss, The Principle of Sufficient Reason: A Reassessment (Cambridge Studies in Philosophy; Cambridge: Cambridge University Press, 2006); Timothy O’Connor, Theism and Ultimate Explanation: The Necessary Shape of Contingency (Oxford: Blackwell, 2008); Stephen T. Davis, God, Reason, and Theistic Proofs (Reason and Religion; Grand Rapids: Eerdmans, 1997); Robert Koons, “A New Look at the Cosmological Argument,” American Philosophical Quarterly 34 (1997): 193–211; Richard Swinburne, The Existence of God (2nd ed.; Oxford: Clarendon, 2004).

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