Um grupo de eticistas como Robert Adams, William Alston, Mark
Linville, Paul Copan, John Hare, Stephen Evans e outros tem defendido
várias formas de argumentos morais para a existência de Deus[1]. A fim
de entender a versão do argumento moral que eu defendo em meu próprio
trabalho, é necessário que nós compreendamos duas importantes
distinções.
Primeiro, nós devemos distinguir valores morais de deveres
morais. Valores têm a ver com algo ser bom ou mau. Deveres têm a ver
com algo ser certo ou errado. Você pode estar pensando agora que esta
distinção não faz diferença alguma: “bom” e “certo” significam a mesma
coisa, e o mesmo ocorre com “mau” e “errado”. Mas se você pensar um
pouco verá que este não é o caso. Um dever tem a ver com obrigação
moral, o que você deve ou não deve fazer. Mas obviamente você não é
moralmente obrigado a fazer alguma coisa apenas porque ela será boa para
você. Por exemplo, seria bom para você se tornar um doutor, mas você
não está moralmente obrigado a se tornar um doutor. Além do mais, também
seria bom a você se tornar um bombeiro ou uma dona de casa ou um
diplomata, mas você não pode ser todas estas coisas. Desta forma, existe
uma diferença entre bem/mal e certo/errado. Bem/mal tem a ver com valer a pena, enquanto certo/errado tem a ver com obrigação.
Segundo, existe a diferença entre ser objetivo e subjetivo.
Por “objetivo” eu quero dizer “independente da opinião das pessoas”.
Por “subjetivo” eu quero dizer “dependente da opinião das pessoas”.
Desta forma, dizer que existem valores morais objetivos significa dizer
que alguma coisa é boa ou má independentemente do que qualquer pessoa
pense sobre isto. De forma similar, dizer que temos deveres morais
objetivos significa dizer que certas ações são corretas ou erradas a nós
a despeito do que as pessoas pensam sobre isto. Assim, por exemplo,
dizer que o Holocausto foi objetivamente errado é dizer que ele foi
errado mesmo que os nazistas que o levaram a cabo pensassem que aquilo
era correto, e que isto continuaria sendo errado mesmo se os nazistas
tivessem vencido a II Guerra Mundial e tivessem tido sucesso em
exterminar ou fazer lavagem cerebral em todos que discordassem deles
para que todos, desta forma, acreditassem que o Holocausto era correto.
Com estas distinções em mente, aqui está um argumento moral simples para a existência de Deus:
1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não
existem.
2. Valores e deveres morais objetivos existem.
3. Logo, Deus existe.
Premissas 1 e 2
O que
torna este argumento tão convincente não é apenas porque ele é
logicamente rígido, mas porque as pessoas geralmente acreditam em ambas
as premissas. Em uma era pluralista, as pessoas temem impor seus valores
às demais pessoas. Assim a premissa 1 parece ser correta a elas.
Valores e deveres morais não são realidades objetivas (isto é, válido e
obrigatório independente da opinião humana), mas são meramente opiniões
subjetivas impregnadas em nós pela evolução biológica e condicionamentos
sociais.
Ao mesmo tempo, entretanto, as pessoas acreditam profundamente que
certos valores e deveres morais como tolerância, abertura de mente e
amor são objetivamente válidos e obrigatórios. Eles pensam que é
objetivamente errado impor seus valores às demais pessoas! Sendo assim, eles estão profundamente compromissados com a premissa 2 também.
A Resposta de Dawkins
Na
verdade, o próprio Dawkins parece aceitar as duas premissas! Em relação à
premissa 1, Dawkins nos informa que “no fundo não existe design, nem
propósito, nem mal, nem bem, nada além de indiferença sem sentido. [...]
Nós somos máquinas propagando DNA. [...] Esta é a única razão de ser de
todos os objetos vivos”.[2] Mas embora ele diga que não existe mal, nem
bem, nada além de indiferença sem sentido, o fato é que Dawkins é um
moralista inflexível. Ele diz que ficou “mortificado” em saber que o
executivo da Enron Corporation, Jeff Skilling, considerou o livro O Gene Egoísta
de Dawkins como seu livro favorito por causa da sua percepção sobre o
Darwinismo Social.[3] Ele caracteriza “equívocos darwinianos” como
piedade para com alguém que não poderá nos pagar de volta ou atração
sexual por uma pessoa infértil do sexo oposto como “equívocos abençoados
e preciosos” e chama compaixão e generosidade de “nobres emoções”.[4]
Ele denuncia a doutrina do pecado original como “repulsiva em termos
morais”.[5] Ele vigorosamente condena ações como a perseguição e o abuso
de homossexuais, a doutrinação infantil de crianças, a prática inca de
sacrifício humano, e premia a diversidade cultural sobre os interesses
dos filhos dos amish. Ele vai ainda mais longe e oferece seus próprios
Dez Mandamentos como guia de comportamento moral, ao mesmo tempo em que
estava maravilhosamente esquecido da contradição com seu subjetivismo
ético![6]
Em sua vistoria sobre os argumentos para a existência de Deus, Dawkins
toca em um tipo de argumento moral que ele chama de “Argumento de
Grau”.[7] Mas ele tem pouca semelhança com o argumento apresentado aqui.
Nós não estamos argumentando em graus de bondade até o maior bem, mas
da realidade objetiva dos valores e deveres morais até seus fundamentos
na realidade. É difícil acreditar que todas as calorosas denúncias e
afirmações morais de Dawkins na verdade tendem ser não mais do que sua
opinião subjetiva, como se ele sussurrasse com uma piscadinha, “Claro,
eu não acho que abuso infantil, homofobia e intolerância religiosa são realmente
coisas erradas! Faça o que você quiser – não há diferença moral!”. Mas a
afirmação de valores e deveres objetivos é incompatível com seu
ateísmo, pois de acordo com o naturalismo nós somos apenas animais,
primatas relativamente avançados, e animais não são agentes morais.
Afirmando ambas as premissas do argumento moral, Dawkins está, assim, na
dor da irracionalidade, comprometido com a conclusão do argumento, a
saber, que Deus existe.
O Dilema de Eutifron
Embora
Dawkins não levante a objeção seguinte, as pessoas frequentemente a
escutam por não-crentes em resposta ao argumento moral. Esta objeção é
chamada Dilema de Eutifron, nome de um dos personagens de um diálogo de
Platão. Ela basicamente é assim: algo é bom por que Deus assim o quer?
Ou Deus o quer porque este algo é bom? Se você disser que alguma coisa é
boa porque Deus a quer, então o que é “bom” se torna arbitrário. Deus
poderia ter desejado que o ódio fosse bom, e assim nós seríamos
moralmente obrigados a odiarmos uns aos outros. Isto parece loucura.
Pelo menos alguns valores morais parecem ser necessários. Mas se você
disser que Deus quer alguma coisa porque ela é boa, então o que é bom ou
mau independe de Deus. Neste caso, valores e deveres morais existiriam
independentemente de Deus, o que contradiz a premissa 1.
O ponto
fraco do Dilema de Eutifron é que o dilema que ele apresenta é falso
porque existe uma terceira alternativa desconsiderada, a saber, Deus
deseja algo porque Ele é bom. A própria natureza de Deus é o padrão de
bondade, e suas ordens a nós são expressão de sua natureza. Em resumo,
nossos deveres morais são determinados pelas ordens de um Deus justo e
amoroso.
Desta forma
valores morais não são independentes de Deus porque o caráter próprio
de Deus define o que é bom. Deus é essencialmente compassivo, justo,
bom, imparcial, etc. Sua natureza é o padrão moral que determina o que é
certo ou errado. Suas ordens necessariamente refletem sua natureza
moral. Portanto, não existe arbitrariedade. O bem/mal moral é
determinado pela natureza de Deus, e o certo/errado moral é determinado
por sua vontade. Deus quer alguma coisa porque Ele é bom, e algo é
correto porque Deus assim o quer.
Esta visão
da moralidade tem sido eloquentemente defendida em nossos dias por
filósofos bem conhecidos como Robert Adams, William Alston e Philip
Quinn. Embora os ateus continuem a atacar o espantalho erigido através
do Dilema de Eutifron. No recente Cambridge Companion to Atheism (2007),
por exemplo, o artigo sobre Deus e a moralidade, escrito por um
proeminente eticista, apresenta e critica apenas a visão de que Deus
arbitrariamente criou os valores morais – umespantalho que virtualmente
ninguém defende. Os ateus têm de fazer elhor do que isto se eles tentam
derrotar os argumentos morais contemporâneos para a existência de Deus.
Fontes:
[1] Robert Adams, Finite and Infinite Goods (Oxford: Oxford University Press, 2000); William Alston, “What Euthyphro Should Have Said,” in Philosophy of Religion:
A Reader and Guide (ed. William Lane Craig; New Brunswick, NJ: Rutgers
University Press, 2002), 283–98; Mark Linville, “The Moral Argument,” in lackwell Companion to Natural Theology
(ed. William Lane Craig and J. P. Moreland; Oxford: Blackwell, 2009),
391–448; Paul Copan, “God, Naturalism, and the Foundations of Morality,”
in The Future of Atheism: Alister McGrath and Daniel Dennett in Dialogue
(ed. R. Stewart; Minneapolis: Fortress, 2008), 141–61; John Hare, “Is
Moral Goodness without Belief in God Rationally Stable?” in Is Goodness without God Good Enough? A Debate on Faith, Secularism, and Ethics (ed. Nathan King and Robert Garcia; Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2008); C. Stephen Evans, Kierkegaard’s Ethic of Love: Divine Commands and Moral Obligations (Oxford: Oxford University Press, 2004).
[2]
Citado em Lewis Wolpert, Six Impossible Things before Breakfast: The
Evolutionary Origins of Belief (New York: Norton, 2006), 215. Infelizmente,
a referência de Wolpert está equivocada. A citação parece ser uma
mistura de trechos de, River out of Eden: A Darwinian View of Life (New
York: Basic, 1996), 133, e The Ultraviolet Garden, Palestra 4 de 7 Royal
Institution Christmas Lectures
(1992), http://physicshead.blogspot.com/2007/01/richarddawkins-lecture-4-ultraviolet.html.
(Agradeço ao meu assistente Joe Gorra por traçar esta referência.)
[3] Dawkins, Deus, um delírio, 280.
[4] Ibid., 288. (221)
[5] Ibid., 323. (251)
[6] Ibid., 339-341.
[7] Ibid., 114.

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